terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Testemunho de outro portador de TDAH

Eis uma entrevista feita com um amigo meu, o João Cavalcanti, que também é portador de TDAH. Ela foi publicada no Blog "Quase sem querer", feito por alunos de Psicologia da Universidade Federal de Pernambuco. Acredito que todos irão gostar, pois ela é, além de bastante espontânea e gostosa de ler, muito elucidativa e esclarecedora ao mesmo tempo. Segue na íntegra:

ENTREVISTA: portador de TDAH

João Cavalcanti, 51 anos, é portador de TDAH
e aceitou contar um pouco sobre como
é conviver com esse transtorno.

A VIDA DE UM TDAH...

QSQ:TDAH - Como o seu TDAH evoluiu ao longo do tempo?

João - Eu tive uma história de depressão recorrente. Lembro que por volta dos 18 ou 19 anos esses eventos depressivos começaram a aparecer em mim. Eles apareciam do nada. Não tinha um gatilho, como costumavam dizer. E teve um evento muito forte... eu morava só e eu simplesmente parei de trabalhar e tudo o mais. Um amigo meu foi lá porque estava estranhando, pois eu não me comunicava mais com ninguém. Ele me encontrou acuado num quarto, há não sei quantos dias, sem comer, sem tomar banho... num estado deplorável. E ele me internou numa clínica (minha família esteve muito distante nessa história toda), orientado por um psiquiatra. Essa clínica era de Recife, e só depois de um tempo eu fui saber que era uma clínica especializada para drogados. Lá me explicaram que a depressão era um fato comum às pessoas que fazem uso de drogas e estão em abstinência, mas nunca tive envolvimento com nenhum tipo de droga. Eu fiquei lá por 45 dias e foi uma experiência terrível pra mim, não sei avaliar se saí bem ou mal dessa história. Eu sai de lá com um diagnóstico de portador de depressão maior, uma coisa que até então eu nunca tinha ouvido falar.

QSQ: TDAH - Quando você foi diagnosticado com TDAH?

João - Bom, eu fui aprendendo a identificar quando vinham esses episódios depressivos, e há cerca de 5 anos atrás tive a percepção de que essa depressão ia se instalar e eu, preventivamente, procurei um psiquiatra. E me assustei porque até então eu nunca tinha ouvido falar sobre TDAH. O psiquiatra começou a fazer uma investigação mais acurada sobre o processo, pois ele não acreditava que uma depressão maior ocorresse sem um gatilho. Foi ele quem primeiro levantou a possibilidade de TDAH, sendo muito cuidadoso porque ele disse que não é em uma conversa que se dá um diagnóstico. Ele também envolveu uma psicóloga na história, pra ela fazer uma avaliação.

QSQ:TDAH - Como você se sentia antes e como passou a se sentir depois do diagnóstico?

João - Eu tenho uma característica que é engraçada: eu procuro saber tudo sobre o que dizem que eu tenho ou sobre o que me interessa, e naquela hora o TDAH me interessava. Então eu fui numa livraria e comprei o que pude sobre o assunto, também fui até a universidade e procurei livros sobre TDAH. Eu fiz uma imersão nessa história de TDAH... E aí eu comecei a identificar algumas situações na minha vida que teriam alguma justificativa. Foi, ao mesmo tempo, alentador e assustador. Alentador por eu saber que era um transtorno que dava justificativas (não para os outros, mas pra mim) sobre vários acontecimentos da minha vida; e assustador porque eu pensei ”o que vou fazer da minha vida, já adulto, com isso?” E toda a literatura sempre faz referência a pessoas na fase da infância e adolescência. Daí pra frente eu resolvi envolver profissionais na história.

QSQ:TDAH - Você gostaria de contar algum episódio da sua vida em que você percebeu que foi motivado pelo TDAH?

João - Minhas relações afetivas, por exemplo, acontecem quase como um mantra: me apaixonar, começar uma relação, fazer planos, perder o foco e largar. Hoje eu tenho várias ex-namoradas que não sei nem como conseguiram ficar amigas minhas [risos]. Na escola eu era um aluno que abandonava muito as disciplinas. Eu só tinha duas coisas dentro da universidade: ou eu era aprovado por média (em geral, alta) ou era reprovado por falta. Se eu perdesse o foco, eu abandonava... Também era de comprar a briga de todo mundo e as minhas também. Quando eu olho pra isso eu fico até assustado quando vejo alguém dizer, como o próprio Eisenberg (criador do TDAH, como ele mesmo se denominou), que o TDAH foi uma farsa. Só quem tem o TDAH sabe o que viver com isso...


AS DIFICULDADES ENCONTRADAS...


QSQ:TDAH - Quais as principais dificuldades e/ou limitações encontradas?

João - Limitações pra mim é uma coisa que não existe. Elas podem até existir, mas eu as ignoro. Mas isso é um traço da minha personalidade, pois, quando algo me traz um mal estar, eu abandono. Não estou negando a existência de limitações, só que eu as desconheço, mas mais por um traço de personalidade minha. Dificuldades eu tenho, mas eu as coloco no mesmo balaio das limitações.

QSQ:TDAH - E você tem dificuldades em quê?

João - Uma dificuldade grande é a de concluir coisas. Eu brigo com essa dificuldade todos os dias. Eu estou no 11º curso universitário. Já cursei Geografia, Engenharia Florestal, Engenharia de Pesca, Engenharia Civil, Direito, Arquitetura, Gestão Ambiental, Medicina, Teologia, Física...

QSQ: TDAH – Você possui alguma comorbidade?

João - Mal o meu TDAH foi diagnosticado, já foi iniciada a investigação de possíveis comorbidades. Eu sou bipolar, meu diagnóstico é fechado: eu tenho TDAH e bipolaridade. Às vezes a comorbidade no adulto toma um espaço maior do que o próprio TDAH e a justificativa para isso, imagino, é que o adulto de uma certa forma aprende a conviver com o TDAH. Eu não sei dizer como é viver sem o TDAH. Eu não sei em que momento específico da vida a bipolaridade apareceu, mas ela é muito pior do que o TDAH. Hoje eu me questiono se os episódios de depressão são ligados ao TDAH ou a bipolaridade.

QSQ: TDAH - Você acha que as pessoas diagnosticadas com TDAH sofrem algum tipo de preconceito?

João - Eu não sinto isso, mas algumas pessoas não querem assumir que tem TDAH. O TDAH é uma doença mental e esse nome ficou... O nome “doente mental” para muitos significa “doido”, e nem todo mundo gosta de carregar o nome de “doido” e também nem todo mundo quer conviver com um “doido”. Acho que temos que desmistificar isso.


O TRATAMENTO...


QSQ: TDAH - Por quais tipos de tratamento você já passou? Foram eficazes?

João - Como eu falei, o meu TDAH foi diagnosticado por um psiquiatra e ele sugeriu que eu fizesse TCC pra organizar um pouco a minha vida. Eu acredito na validade do TCC, possivelmente, para quem está na infância e adolescência... porque na verdade aquilo é um adestramento. Pra mim não funcionou porque eu quis pular etapas e esse é um tipo de tratamento muito gradual.

Eu faço terapia até hoje com uma psicóloga. Também vou ao psiquiatra e tenho uma amiga que faz acompanhamento psicopedagogo comigo pra que eu não saia abandonando os cursos pelo meio do caminho... Se você me perguntar se eu noto melhoras, eu lhe respondo que sim.

Também tomo Ritalina LA 20mg/dia, ou, às vezes, eu mesmo faço a minha dosagem conforme minha necessidade (se ela é LA ou não, eu que resolvo). Também tomo um estabilizante de humor, a Carbamazepina. Tomo um remédio que foi desenvolvido para a esquizofrenia, mas que em doses altas faz bem à bipolaridade, que é a Quetiapina. Tomo Clonazepam (Rivotril) ‘SE’ eu tiver necessidade disso. Mas hoje em dia estou vendo a com a minha psiquiatra a possibilidade de retirar alguns desses medicamentos. Acredito que eu vá terminar apenas com a Ritalina (ela tem um efeito muito bom sobre mim, sem querer dizer que todo TDAH precise de Ritalina ou Conserta) e com o estabilizante de humor, que é a Carbamazepina.


http://quasesemquerertdah.blogspot.com.br/2014/02/entrevista-portador-de-tdah.html 

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Agradecimento!

Agradeço todos os contatos e mensagens de apoio que recebi nos últimos dias!

É muito bom saber que este blog está atingindo seu objetivo: dar um sentido à minha luta, compartilhando aprendizados e descobertas com quem sofre do mesmo mal que eu. Estou realmente feliz!

Outra coisa bacana é que as perguntas que fizeram a mim me apontam direções para novas postagens e pesquisas, e desta forma posso fazer deste blog, cada vez mais, uma ferramente útil para quem quer conhecer melhor este distúrbio neurológico mas detesta a linguagem formal e demasiadamente técnica da literatura específica.

Mais uma vez... obrigada!


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Indicação de leitura! "Tendência à distração"



Recomendo a leitura deste livro para quem deseja aprender mais sobre TDAH .

Descoberta!

Depois de anos lendo e pesquisando sobre TDAH, e principalmente, me tratando, eis que minha vida me apresenta mais uma grande surpresa: TDAH é meu diagnóstico secundário, o primário é Síndrome de Asperger!

Na verdade, tudo faz muito sentido... embora eu apresente sim os sintomas de TDAH, eu também apresento, digamos assim, comportamentos"diferentes", que não fechavam com nada do que li até agora e que acabei aceitando como idiossincrasias minhas.

Por falta de tempo de explicar tudo aqui hoje, vou postar aqui uma parte de uma carta que mandei para uma amiga e que vai ajudar o leitor a entender do que estou falando:

"Isso muda tudo em minha vida, e explica o que antes parecia mimo ou loucura da minha parte. Confesso que aquelas características minhas que nem eu conseguia explicar, pareciam loucura até para mim, e é um alívio saber que elas têm explicação... e solução! 

Vou tentar explicar...
A Síndrome de Asperger é chamada de doença do espectro do Autismo porque é uma variação deste. Em comum, ambos apresentam dificuldade de socialização e de "ler" as outras pessoas, só que o Autista é considerado totalmente incapaz nestas habilidades e o Asperger "apenas" tem dificuldade nesta área. Na hora que o médico falou isso, eu estranhei e perguntei como pode se isso, uma vez que eu falo "mais que o homem da cobra", mas ele disse que ser tagarela e se socializar bem são habilidades distintas e que uma não substitui a outra. Ele falou que o tagarela muitas vezes apenas "derrama" informações, sem perceber que está falando demais, ou muito rápido, interrompe os outros, fica focado apenas na sua linha de raciocínio e mal percebe o que os outros falam, ou o efeito de sua tagarelice nas pessoas... e neste caso, ele não está se socializando bem. Quando ele disse isso, minha mãe disse que isso me descreve bem, que desde pequena falo muito sem prestar atenção nos outros. 

Então, tanto o autista quanto o asperger se perdem em seus mundos, mas o autista não chega a se dar conta da presença dos outros, não sente falta de socialização e prefere ficar no seu mundo, mas o asperger quer interagir socialmente, mas lhe faltam habilidades que permitam fazer isso de maneira plena. 

Outras características: repetir muito as mesmas histórias, padrões repetitivos de comportamento (eu as vezes ouço dezenas de vezes a mesma música ou repito por horas a mesma atividade), comprometimento significativo nas habilidades sociais e ocupacionais sem, no entanto, comprometer a capacidade cognitiva (aprendizado), ansiedade excessiva, foco único de atenção no mesmo assunto/objeto por longos períodos, dificuldade de adaptação a mudanças, linguagem pedante e rebuscada (nesta parte minha mãe deu gargalhada e concordou totalmente), dificuldade de interpretar mentiras e ironias, desajeitada (comprometimento motor), desenha bem, falta de auto-censura (fala tudo o que pensa), dificuldade de entender e expressar emoções, hipersensibilidade sensorial e ao ambiente (vontade de se afastar do foco de tensão), sensibilidade exacerbada a ruídos repetitivos, dificuldade em generalizar o aprendizado, etc. No caso das meninas existem sintomas específicos que são: ser "mãezinha" ou "professorinha" de meninas menores e ser controladora nas brincadeiras (sempre!), muito interesse por bonecas - as vezes substituindo pessoas reais, ou falam demais ou são tímidas quase mudas, gostam muito de brincar com pedrinhas, conchinhas e objetos pequenos, brincam até a adolescência(brinquei até os 16), loucas por cavalos, leitoras vorazes desde pequenas (li minha primeira enciclopédia completa com 8 anos), interesse por jogos mais masculinos, se veste inadequadamente, muito inteligente mas se mete fácil em confusões, dificuldade para cumprimentar as pessoas, solidão, confusão, depressão, etc... a lista é longa, e meus pais me reconheceram em TODOS os sintomas. Claro que alguns deles foram moldados pela influência de meus pais, que, por exemplo, sempre me faziam dizer "oi" e ser gentil com todo mundo.  

A Ritalina, que eu tomo por causa do TDAH, ajudou a minimizar muitos destes sintomas, o que fez com que meu diagnóstico demorasse mais. Mas com a ajuda de minha família, avaliando quem eu era antes de começar a me medicar para TDAH, foi confirmado que meu diagnóstico na verdade é 90% Asperger e 10% TDAH. 

Já estou tomando outro medicação junto com a Ritalina, e desde os primeiros dias todo mundo diz que está percebendo uma mudança espantosa em mim. Uma das coisas que eu percebo que mudou é que quela minha necessidade por simetria no meu corpo (acho q falei dela para a senhora já), diminuiu bastante. Isso é uma ótima notícia porque antes eu passava, por exemplo, um tempão amarrando e desamarrando meus cadarços até os dois lados estarem amarrados com a mesma pressão. Hoje eu calço meus sapatos, e mesmo que eu sinta que cada um pé está mais apertado que o outro, consigo ignorar e ir fazer minhas coisas tranquilamente. A senhora não faz idéia de como isso é libertador, e de como estou aliviada e feliz!

No próximo dia 5 vou começar terapia cognitiva comportamental com uma psicóloga especialista em Asperger, acredito que vai ser muito bom e que finalmente poderei ter a autonomia que sempre almejei!"

Como esta novidade é bastante recente, estou gora pesquisando sobre a Síndrome de Asperger e, na medida em que eu for aprendendo mais coisas, vou compartilha-las aqui.

Um grande abraço!

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Mas o que é TDAH?

Depois de um longo período sem atualizar o blog, resolvi retomar este projeto. Algumas pessoas acreditam que eu não deveria me expor assim, mas eu acredito que passar por tudo, enfrentar todas as lutas, e aprender caminhos para a superação não teria valor se as lições aprendidas não puderem ser divididas com aqueles que enfrentam batalhas semelhantes.

Enfim, vamos às explicações...

Segue uma entrevista feita com a Dra Ana Beatriz Barbosa Silva (autora do livro "Mentes Inquietas") para o site Medicina do Comportamento. Acredito que será bastante elucidativa para todos os que se interessam pelo tema!


  • O que é o Transtorno do Deficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH)?
    Ana Beatriz: O TDAH é um transtorno neurobiológico caracterizado por três sintomas básicos: desatenção (instabilidade de atenção), impulsividade e hiperatividade (inquietação).

    Muitas crianças e adolescentes apresentam desatenção, inquietude e impulsividade. No entanto, algumas delas têm essas características em um grau muito mais elevado que o observado em seus pares da mesma idade. Podemos dizer, então, que essas crianças ou adolescentes são portadoras de TDAH. Trata-se de uma diferença comportamental de aspecto quantitativo e não qualitativo. 
  • Como podemos observar os três sintomas de base do TDAH?
    Ana Beatriz:
    Alteração da atenção

    Esse é, com certeza, o sintoma mais importante no entendimento do comportamento TDA, uma vez que esta alteração é a condição sine qua non para se efetuar o diagnóstico. Uma pessoa com TDA pode ou não apresentar hiperatividade física, mas jamais deixará de apresentar forte tendência à dispersão.

    Para um TDA, manter-se concentrado em algo pode ser um desafio tão grande como para um atleta de corrida com obstáculos que precisa transpor barreiras cada vez maiores até chegar ao fim da pista. Essa dificuldade em se manter concentrado em determinado assunto, pensamento, ação ou fala, costuma provocar situações bastante embaraçosas na vida escolar, profissional, social, familiar e afetiva de um TDA.

    Impulsividade
    Os TDAs tendem a reagir de maneira exacerbada frente aos estímulos do mundo externo, quando percebidos, é claro. E os estímulos percebidos tendem a ser aqueles com maior conotação emocional.

    Crianças TDAs costumam dizer o que lhes vêm à mente, envolver-se em brincadeiras perigosas, brigam com reações exageradas e isso lhes rende rótulos desagradáveis como “mal-educadas”, “más”, “grosseiras”, “agressivas”, “irresponsáveis” etc.

    No adulto TDA, a impulsividade também trará sérias consequências: maior número de demissões em empregos, separações conjugais, envolvimento com acidentes em gerais (inclusive automobilísticos).

    Hiperatividade física e mental
    É muito fácil identificar a hiperatividade física de um TDA. Quando crianças mostram-se agitadas, chegam a andar aos pulos, como se seus passos fossem lentos demais para acompanhar a energia contida em seus músculos. Em ambientes fechados, mexem em vários objetos ao mesmo tempo, derrubando grande parte deles no ímpeto de checá-los simultaneamente. Por essas razões costumam receber designações pejorativas como “bicho carpinteiro”, “elétricas”, “desengonçadas”, “petinhas”, “diabinhas”.

    Nos adultos podemos observar a hiperatividade física naqueles que “sacodem” incessantemente as pernas, “rabiscam” com constância papéis à sua frente, roem unhas, mexem o tempo todo nos cabelos, “dançam” em suas cadeiras de trabalho e estão sempre buscando algo para manter as mãos ocupadas.

    A hiperatividade mental sempre estará presente em qualquer TDA. Ela pode ser entendida como um “chiado” cerebral, tal qual um motor de automóvel desregulado que acaba por provocar um desgaste bastante acentuado.


  • Existem formas distintas de TDA?
    Ana Beatriz: O TDA pode se apresentar em subtipos diferentes, de acordo com os sintomas que predominam em seu comportamento (desatenção ou hiperatividade/impulsividade). Existem TDAs que se caracterizam mais pelos sintomas de desatenção (dispersão), ao passo que outros TDAs podem ter mais evidenciados os sintomas de hiperatividade-impulsividade. Ou, ainda, ter sintomas combinados de dispersão e de hiperatividade. 
  • Quais podem ser as consequências do TDAH?
    Ana Beatriz: Ter TDA não é grave. No entanto, não tratá-lo de forma precoce podem gerar problemas negativos em diferentes áreas. No caso das crianças, o mau desempenho escolar ou de mau comportamento costumam ser os fatores motivadores na busca de auxílio. A criança TDA tende a ter seus sintomas exacerbados na escola pelo fato de este ser um ambiente no qual ela precisa seguir regras e prestar atenção por períodos de tempo prolongados, especialmente em atividades monótonas ou menos prazerosas. Além disso, a criança TDA costuma apresentar dificuldades de relacionamentos com seus colegas. 

    Nos adultos os problemas tendem a ser mais variados. Os adultos TDAs podem ter seus estudos incompletos; são mais suscetíveis a sofrer acidentes em geral; apresentam maiores taxas de divórcio; tendência a uso de drogas, ansiedade, angústia, depressão e diversos transtornos de forma comórbida (secundária). 
  • Qual é a prevalência do TDAH? 
    Ana Beatriz: O TDAH é uma condição que se manifesta na infância e, na maioria das vezes, continua na idade adulta. Estudos revelam que 3 a 7% das crianças em idade escolar sofrem de TDAH. Entre 60 e 70% das crianças acometidas pelo transtorno levarão e continuarão com os sintomas na idade adulta. O que geralmente ocorre é a que a pessoa portadora de TDAH nunca foi diagnosticada. Por essa razão, estima-se que o TDAH é o transtorno psiquiátrico mais comum não-diagnosticado entre os adultos. Tudo não passa de uma continuação do problema que se iniciou na infância.

    O entendimento sobre o TDAH na fase adulta pôs fim a um mito, que perdurou por muitas décadas (inclusive na classe médica), de que o transtorno era exclusivo de crianças.
  • Existe diferença entre o TDAH feminino e o masculino? 
    Ana Beatriz: Sim. Diferentemente dos homens, mulheres com TDA podem, muitas vezes, passar incógnitas aos olhos mais atentos. Entre elas predomina o tipo sem hiperatividade física, ao contrário de seus pares masculinos. Tal diferença, determinada por particularidades biológicas dos sexos e aliada ao componente cultural, pode contribuir para a aparente superioridade numérica da população masculina entre os que têm o diagnóstico de TDA.

    Sabe-se que para cada mulher com TDA, em média, há três homens, segundo estudos mais recentes (esta proporção já foi considerada de cinco para um). No entanto, permanece a dúvida se o TDA é realmente mais frequente em homens ou se as mulheres estão sendo subdiagnosticas.

    O reconhecimento do TDA em mulheres também representou um marco no estudo do funcionamento cerebral TDA, e pôde desfazer outro mito sobre o transtorno: o fato de o TDA ser uma condição exclusiva de homens. 
  • Como é feito o diagnóstico do TDAH?
    Ana Beatriz: Estabelecer critérios para a identificação de uma pessoa TDA sempre foi um grande desafio enfrentado pela psiquiatria e a psicologia. Na realidade isso ocorre em quase todos os transtornos psiquiátricos, uma vez que não se dispõe, até o momento, de um exame específico, que por si só, seja capaz de estabelecer o diagnóstico do TDA. Por isso, uma conversa detalhada sobre toda a história de um indivíduo, desde sua gestação até os dias atuais, é fundamental.

    Sugiro que as seguintes etapas sejam seguidas no processo de diagnóstico do TDA:

    1ª etapa: procurar um médico especializado no assunto para que se possa expor ideias sobre a possibilidade de alguém ou a própria pessoa possuir um funcionamento cerebral desse tipo.
    2ª etapa: relacionar para o médico as suas (ou de outros: filhos, parentes etc.) dificuldades e desconfortos nas áreas acadêmica, profissional, afetivo-familiar e social, citando exemplos situacionais claros.
    3ª etapa: verificar se tais problemas estiveram presentes desde a infância.
    4ª etapa: certificar-se de que suas alterações se apresentam em grau (intensidade) significativamente maior quando comparado com outras pessoas de seu convívio, que se encontram na mesma faixa etária, e em condições socioculturais semelhantes.
    5ª etapa: eliminar a presença de qualquer situação médica ou não médica, que seja capaz de explicar as alterações apresentadas no seu comportamento, bem como os transtornos que elas lhes causam no dia a dia.
    Para o diagnóstico do TDA em adultos é fundamental e imprescindível detectar as alterações primárias (de atenção, de impulsividade e de hiperatividade) na história infantil do indivíduo, uma vez que não é possívelque uma pessoa passe a ter TDA na fase adulta da vida.

    O ideal é que a história clínica do indivíduo, no processo diagnóstico, seja relacionado com os critérios listados no DSM-IV (Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais), desenvolvidos pela Associação de Psiquiatria Americana (APA).

    Testes psicológicos, exames de neuroimagens funcionais, dosagens sanguíneas de neurotransmissores, avaliações fonoaudiológicas podem e devem ser solicitadas. Eles podem fornecer informações valiosas e complementares no diagnóstico como no planejamento terapêutico de cada pessoa, embora não possam ser utilizados como ferramentas centrais para o diagnóstico primário do TDA. 
  • Qual é o tratamento para o TDAH? 
    Ana Beatriz: Costumo dividir o tratamento do TDA em quatro grandes etapas:

    1. Informação e conhecimento:
    Informação sobre o funcionamento TDA trará conhecimento que auxiliará na compreensão de como o transtorno afeta sua vida e de todos que se encontram ao se redor.

    2. Apoio técnico
    :
    O apoio técnico consiste em criar uma rotina pessoal, que facilite a vidas prática de um TDA e que seja capaz de compensar, em parte, a sua desorganização interna. Muitas vezes essa etapa é feita com o terapeuta dentro da própria psicoterapia de linha cognitivo-comportamental.

    3. Medicamentos
    :
    Existem diversas possibilidades medicamentosas para os TDAs. A terapêutica farmacológica deve ser tentada, pois para a maioria absoluta das pessoas com TDA, a medicação tem apresentado resultados extremamente úteis. Apenas uma minoria, em torno de 15%, não obtém efeitos positivos com o uso das medicações. 

    4. Psicoterapia
    :
    A terapia cognitivo-comportamental (TCC) é a mais adequada aos TDAs. Nessa abordagem o terapeuta conduz o paciente TDA, baseado em vivências concretas, a reformular os conceitos negativos de si mesmo e, dessa forma, abrir caminho para que suas ações e comportamentos no dia a dia possam ser direcionados para suas realizações pessoal, profissional e afetiva.

    Finalizo este item desfazendo outro mito sobre o universo TDA: o de que o tratamento baseia-se única e exclusivamente no uso de determinadas medicações. A medicação, por si só, não constitui todo o tratamento do TDA. É apenas uma das etapas no processo global de tornar a vida das pessoas mais confortável e produtiva. As medicações podem ser complementos úteis e poderosos, mas jamais devem ser consideradas isoladamente dentro da complexa engrenagem de qualificar o cotidiano de um TDA. 
  • O que causa o TDAH?
    Ana Beatriz: Estudos no mundo inteiro revelam a tendência genética que o TDA possui. A origem genética do transtorno é facilmente constatada quando nos atemos à história familiar destas crianças ou adultos. 

    O que um TDA herdaria geneticamente seria um funcionamento alterado de algumas substâncias específicas do cérebro, em especial a dopamina e a noradrenalina. As pesquisas também revelam que essas alterações estariam mais evidentes na região frontal do cérebro (os chamados lobos frontais), que correspondem a nossa testa e fronte. A alteração de tais substâncias nessas regiões seriam responsáveis por todos os sintomas apresentados pelos TDAs. 
  • Toda criança ou adolescente TDA é mau aluno?
    Ana Beatriz: Não. Os TDAs predominantemente desatentos tendem a apresentar maiores dificuldades na condução de suas vidas acadêmicas, por apresentarem uma maior dificuldade em se atentar e apreender as informações que lhe são apresentadas. Já os impulsivos/hiperativos tendem a ter menos dificuldades cognitivas, mas as comportamentais são bem mais evidentes.

    Isso também era um mito na história do funcionamento TDA: “todo TDA é mau aluno”. Mais um mitodesfeito! TDAs podem, inclusive, ser ótimos alunos em determinadas matérias, uma vez que a “paixão” por um determinado assunto ou campo de conhecimento pode colocá-los em estado de hiperfoco, fazendo com que sua atenção e concentração funcionem de maneira “turbinada”. 
  • Por que algumas pessoas insistem em negar a existência do TDAH?
    Ana Beatriz: Antes de qualquer ponderação, é importante deixar claro que o TDAH é um transtorno mental amplamente estudado e pesquisado no âmbito científico, em diversas partes do mundo. É oficialmente reconhecido na Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10) – da Organização Mundial de Saúde (OMS) –, e pela Associação de Psiquiatria Americana (APA), por meio do DSM-IV.

    O aumento do número de diagnósticos ocorridos nos últimos anos está relacionado a uma difusão do conhecimento sobre o transtorno e não a um simples “modismo”, como algumas pessoas costumam atribuir.

    Existem diversas razões para a descrença da existência do TDAH. Vivemos em uma democracia e, por isso mesmo, temos que respeitar as opiniões contrárias, sejam elas quais forem. No entanto, muitos se baseiam em opiniões e crenças pessoais em detrimento do conhecimento alicerçado em pesquisas sérias e científicas, que são atualizadas de forma contínua à medida que novos estudos são publicados em veículos especializados. 

    A falta de conhecimento sobre o TDAH também pode estar por trás da descrença no transtorno. Sem dúvidas, a desinformação acerca do TDAH é algo que atinge não somente leigos, mas, infelizmente, profissionais da saúde (incluindo, médicos e psicólogos). Tais dados vieram à tona em diversas pesquisas realizados ao redor do mundo e, mais recentemente, em nosso país. 

  • A postagem original está neste link: http://www.medicinadocomportamento.com.br/dra_ana_beatriz_barbosa_silva_livros_pergresp3.php

    Sobre a autora:


    Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva


    Médica graduada pela UERJ com pós-graduação em psiquiatria pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professora Honoris Causa pela UniFMU (SP) e Presidente da AEDDA – Associação dos Estudos do Distúrbio do Déficit de Atenção (SP). Diretora da clínica Medicina do Comportamento (RJ), onde faz atendimento aos pacientes e supervisão dos profissionais de sua equipe. Escritora, realiza palestras, conferências, consultorias e entrevistas nos diversos meios de comunicação, sobre variados temas do comportamento humano.

    Livros Publicados: 
     Mentes Inquietas - TDAH: Desatenção, hiperatividade e impulsividade [Publicação revista e ampliada]
     Mentes e Manias: TOC: Transtorno Obsessivo-compulsivo [Publicação revista e ampliada]
     Sorria, você está sendo filmado (em parceria com o publicitário Eduardo Mello) 
     Mentes Insaciáveis: Anorexia, bulimia e compulsão alimentar
     Mentes Perigosas: O psicopata mora ao lado
     Bullying: Mentes perigosas nas escolas 
     Mundo Singular: Entenda o autismo 
     Corações Descontrolados: Ciúmes, raiva e impulsividade 


    E-mail: anabeatriz@medicinadocomportamento.com.br

    quarta-feira, 4 de julho de 2012

    Drama para conseguir consultas!

    Talvez a maior dificuldade não-relacionada a condição neurológica que os portadores de TDAH enfrentam seja conseguir atendimento médico e receitas. As filas de espera de meses, os profissionais despreparados e o controle rigoroso do governo sobre a medicação dificultam tudo.
    A última coisa eu até entendo e não sou de todo contra.
    E sei que as duas primeiras estão interligadas: quanto menor o número de médicos psiquiatras e neurologistas que verdadeiramente conhecem o distúrbio, maior a fila de espera para marcar uma consulta com eles. Já passei por médicos de todos os tipos: os que conheciam o TDAH mas que não se importavam, os que se importavam mas não conheciam e os que não conheciam e nem se importavam.
    Os três piores foram do primeiro tipo.
    Um deles conhecia o TDAH e sabia que muito frequentemente o portador é "hipersexualizado", e por isso resolver dar em cima de mim com perguntas inconvenientes sobre minha vida sexual.
    Outro admitiu que "deu uma pincelada por cima na faculdade", e que "estava aprendendo muito" comigo, e resolveu testar vários remédios em mim para ver o que aconteceria, como se eu fosse uma cobaia!
    E o outro, o último que procurei, semana passada, esqueceu que como todo bom TDAH (nós demoramos para assimilar um novo comportamento, mas uma vez assimilado, dificilmente alteramos aquela rotina, fazemos até mecanicamente) eu não interromperia minha medicação para fazer um novo eletroencefalograma a não ser que ele me lembrasse de fazer isso! Ele não fez a parte dele, eu não fiz a minha (lembrei sozinha quando faltavam 15 horas para o exame), e o resultado foi "normal" na maior parte das reações de meu cérebro. No retorno eu falei com todas as letras "Mas doutor, saiu 'normal' por eu ainda estava sob efeito da medicação, o senhor esqueceu de me avisar para interromper 24 horas antes!" Sabem o que ele fez? Nada! Ou melhor... continuou escrevendo, tirou um xerox da carta de encaminhamento do meu último neurologista, assinou minha ficha, devolveu meu exame e sem olhar para mim foi dizendo "Você deveria estar feliz, não tens problema nenhum!". Em seguida estendeu a mão e se despediu de mim. Saí atônita!
    Eu me trato com cloridrato de metilfenidato há 10 anos. Não funciono sem ele. Mas cada vez que me mudo de cidade é esta mesma novela até encontrar um médico que conheça TDAH/DDA, seja humano, se importe e tenha espaço para mim na sua agenda.

    segunda-feira, 2 de julho de 2012

    Hobbies!

    Agora que estou mais adaptada à minha nova cidade, e - por que não dizer - minha nova vida, resolvi voltar a fazer algum tipo de artesanato. Amo ponto cruz desde pequena, e já retomei este hobby. Estou finalizando uma toalha de copa bem fofa, quando estiver pronta posto a foto aqui.
    Sempre tive curiosidade por scrapbooking, mas nunca tive tempo para dedicar-me a aprender. Mas como a minha vida está mais sossegada, resolvi desenterrar esta idéia. Como qualquer artesanato, o scrapbook é uma delícia de fazer, e só precisamos tomar cuidado com alguns detalhes para que ele tenha um bom acabamento e saia caprichado! Eis meu primeiro cartão feito com esta técnica:

    E então? Ficou bom?
    Estou aberta a opiniões e sugestões, quero muito aprimorar minha técnica. Um abraço a todos!