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terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Testemunho de outro portador de TDAH

Eis uma entrevista feita com um amigo meu, o João Cavalcanti, que também é portador de TDAH. Ela foi publicada no Blog "Quase sem querer", feito por alunos de Psicologia da Universidade Federal de Pernambuco. Acredito que todos irão gostar, pois ela é, além de bastante espontânea e gostosa de ler, muito elucidativa e esclarecedora ao mesmo tempo. Segue na íntegra:

ENTREVISTA: portador de TDAH

João Cavalcanti, 51 anos, é portador de TDAH
e aceitou contar um pouco sobre como
é conviver com esse transtorno.

A VIDA DE UM TDAH...

QSQ:TDAH - Como o seu TDAH evoluiu ao longo do tempo?

João - Eu tive uma história de depressão recorrente. Lembro que por volta dos 18 ou 19 anos esses eventos depressivos começaram a aparecer em mim. Eles apareciam do nada. Não tinha um gatilho, como costumavam dizer. E teve um evento muito forte... eu morava só e eu simplesmente parei de trabalhar e tudo o mais. Um amigo meu foi lá porque estava estranhando, pois eu não me comunicava mais com ninguém. Ele me encontrou acuado num quarto, há não sei quantos dias, sem comer, sem tomar banho... num estado deplorável. E ele me internou numa clínica (minha família esteve muito distante nessa história toda), orientado por um psiquiatra. Essa clínica era de Recife, e só depois de um tempo eu fui saber que era uma clínica especializada para drogados. Lá me explicaram que a depressão era um fato comum às pessoas que fazem uso de drogas e estão em abstinência, mas nunca tive envolvimento com nenhum tipo de droga. Eu fiquei lá por 45 dias e foi uma experiência terrível pra mim, não sei avaliar se saí bem ou mal dessa história. Eu sai de lá com um diagnóstico de portador de depressão maior, uma coisa que até então eu nunca tinha ouvido falar.

QSQ: TDAH - Quando você foi diagnosticado com TDAH?

João - Bom, eu fui aprendendo a identificar quando vinham esses episódios depressivos, e há cerca de 5 anos atrás tive a percepção de que essa depressão ia se instalar e eu, preventivamente, procurei um psiquiatra. E me assustei porque até então eu nunca tinha ouvido falar sobre TDAH. O psiquiatra começou a fazer uma investigação mais acurada sobre o processo, pois ele não acreditava que uma depressão maior ocorresse sem um gatilho. Foi ele quem primeiro levantou a possibilidade de TDAH, sendo muito cuidadoso porque ele disse que não é em uma conversa que se dá um diagnóstico. Ele também envolveu uma psicóloga na história, pra ela fazer uma avaliação.

QSQ:TDAH - Como você se sentia antes e como passou a se sentir depois do diagnóstico?

João - Eu tenho uma característica que é engraçada: eu procuro saber tudo sobre o que dizem que eu tenho ou sobre o que me interessa, e naquela hora o TDAH me interessava. Então eu fui numa livraria e comprei o que pude sobre o assunto, também fui até a universidade e procurei livros sobre TDAH. Eu fiz uma imersão nessa história de TDAH... E aí eu comecei a identificar algumas situações na minha vida que teriam alguma justificativa. Foi, ao mesmo tempo, alentador e assustador. Alentador por eu saber que era um transtorno que dava justificativas (não para os outros, mas pra mim) sobre vários acontecimentos da minha vida; e assustador porque eu pensei ”o que vou fazer da minha vida, já adulto, com isso?” E toda a literatura sempre faz referência a pessoas na fase da infância e adolescência. Daí pra frente eu resolvi envolver profissionais na história.

QSQ:TDAH - Você gostaria de contar algum episódio da sua vida em que você percebeu que foi motivado pelo TDAH?

João - Minhas relações afetivas, por exemplo, acontecem quase como um mantra: me apaixonar, começar uma relação, fazer planos, perder o foco e largar. Hoje eu tenho várias ex-namoradas que não sei nem como conseguiram ficar amigas minhas [risos]. Na escola eu era um aluno que abandonava muito as disciplinas. Eu só tinha duas coisas dentro da universidade: ou eu era aprovado por média (em geral, alta) ou era reprovado por falta. Se eu perdesse o foco, eu abandonava... Também era de comprar a briga de todo mundo e as minhas também. Quando eu olho pra isso eu fico até assustado quando vejo alguém dizer, como o próprio Eisenberg (criador do TDAH, como ele mesmo se denominou), que o TDAH foi uma farsa. Só quem tem o TDAH sabe o que viver com isso...


AS DIFICULDADES ENCONTRADAS...


QSQ:TDAH - Quais as principais dificuldades e/ou limitações encontradas?

João - Limitações pra mim é uma coisa que não existe. Elas podem até existir, mas eu as ignoro. Mas isso é um traço da minha personalidade, pois, quando algo me traz um mal estar, eu abandono. Não estou negando a existência de limitações, só que eu as desconheço, mas mais por um traço de personalidade minha. Dificuldades eu tenho, mas eu as coloco no mesmo balaio das limitações.

QSQ:TDAH - E você tem dificuldades em quê?

João - Uma dificuldade grande é a de concluir coisas. Eu brigo com essa dificuldade todos os dias. Eu estou no 11º curso universitário. Já cursei Geografia, Engenharia Florestal, Engenharia de Pesca, Engenharia Civil, Direito, Arquitetura, Gestão Ambiental, Medicina, Teologia, Física...

QSQ: TDAH – Você possui alguma comorbidade?

João - Mal o meu TDAH foi diagnosticado, já foi iniciada a investigação de possíveis comorbidades. Eu sou bipolar, meu diagnóstico é fechado: eu tenho TDAH e bipolaridade. Às vezes a comorbidade no adulto toma um espaço maior do que o próprio TDAH e a justificativa para isso, imagino, é que o adulto de uma certa forma aprende a conviver com o TDAH. Eu não sei dizer como é viver sem o TDAH. Eu não sei em que momento específico da vida a bipolaridade apareceu, mas ela é muito pior do que o TDAH. Hoje eu me questiono se os episódios de depressão são ligados ao TDAH ou a bipolaridade.

QSQ: TDAH - Você acha que as pessoas diagnosticadas com TDAH sofrem algum tipo de preconceito?

João - Eu não sinto isso, mas algumas pessoas não querem assumir que tem TDAH. O TDAH é uma doença mental e esse nome ficou... O nome “doente mental” para muitos significa “doido”, e nem todo mundo gosta de carregar o nome de “doido” e também nem todo mundo quer conviver com um “doido”. Acho que temos que desmistificar isso.


O TRATAMENTO...


QSQ: TDAH - Por quais tipos de tratamento você já passou? Foram eficazes?

João - Como eu falei, o meu TDAH foi diagnosticado por um psiquiatra e ele sugeriu que eu fizesse TCC pra organizar um pouco a minha vida. Eu acredito na validade do TCC, possivelmente, para quem está na infância e adolescência... porque na verdade aquilo é um adestramento. Pra mim não funcionou porque eu quis pular etapas e esse é um tipo de tratamento muito gradual.

Eu faço terapia até hoje com uma psicóloga. Também vou ao psiquiatra e tenho uma amiga que faz acompanhamento psicopedagogo comigo pra que eu não saia abandonando os cursos pelo meio do caminho... Se você me perguntar se eu noto melhoras, eu lhe respondo que sim.

Também tomo Ritalina LA 20mg/dia, ou, às vezes, eu mesmo faço a minha dosagem conforme minha necessidade (se ela é LA ou não, eu que resolvo). Também tomo um estabilizante de humor, a Carbamazepina. Tomo um remédio que foi desenvolvido para a esquizofrenia, mas que em doses altas faz bem à bipolaridade, que é a Quetiapina. Tomo Clonazepam (Rivotril) ‘SE’ eu tiver necessidade disso. Mas hoje em dia estou vendo a com a minha psiquiatra a possibilidade de retirar alguns desses medicamentos. Acredito que eu vá terminar apenas com a Ritalina (ela tem um efeito muito bom sobre mim, sem querer dizer que todo TDAH precise de Ritalina ou Conserta) e com o estabilizante de humor, que é a Carbamazepina.


http://quasesemquerertdah.blogspot.com.br/2014/02/entrevista-portador-de-tdah.html 

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Agradecimento!

Agradeço todos os contatos e mensagens de apoio que recebi nos últimos dias!

É muito bom saber que este blog está atingindo seu objetivo: dar um sentido à minha luta, compartilhando aprendizados e descobertas com quem sofre do mesmo mal que eu. Estou realmente feliz!

Outra coisa bacana é que as perguntas que fizeram a mim me apontam direções para novas postagens e pesquisas, e desta forma posso fazer deste blog, cada vez mais, uma ferramente útil para quem quer conhecer melhor este distúrbio neurológico mas detesta a linguagem formal e demasiadamente técnica da literatura específica.

Mais uma vez... obrigada!


quarta-feira, 13 de junho de 2012

Antes do diagnóstico de TDAH...


Conversando com uma pessoa que está começando agora a medicar-se com Ritalina, comecei a lembrar de como era a Kátia antes de seu tratamento...

Desde pequena, muitos anos antes de saber que existe o Transtorno do Déficit de Atenção, ou de imaginar que eu fosse portadora de algum distúrbio desta natureza, eu era simplesmente uma criança “diferente”. Eu era muito criativa, sonhadora e amava passar horas pensando, inventando histórias, desenhando, brincando e lendo. Lembro que quando eu ficava magoada meu consolo era fechar os olhos (se necessário, também os ouvidos), e “fugir” para meu mundo perfeito, rodeada de personagens – todos planejados detalhadamente por mim mesma. 

Aprendi a ler com 6 anos, e aos 8 já tinha bastante fluência. Foi nesta idade que li minha primeira enciclopédia, todos os 10 volumes, pulando apenas as partes de fórmulas químicas e físicas. Alias cálculo nunca foi meu forte, e mais tarde eu soube que uma de minhas comorbidades é a discalculia. Por outro lado, eu me apaixonei por História, Arqueologia, Antropologia, Arte, Biologia, Palenteologia e Mitologia. Também me embevecia com as Biografias, principalmente dos cientistas. Ficava fascinada com o fato de que as maiorias das grandes descobertas científicas surgiram de simples fatos do cotidiano. 

Lembro-me de ter ganhado um porta-joias lindo, todo de madeira, pintado com flores. Eu guardei nele um filme queimado (aqueles de fotografia), pincéis, pinças, potinhos e outros cacarecos mais, que compunham meu “estojo científico”. Mas eu amava bonecas também, claro. Eu brincava de Barbie, e a minha trabalhava em um museu de arqueologia, feito com barras de sabão azul, pedras, conchas, estrelas marinhas, pedaços de corais, etc. Lembro também de ter ficado realizada o dia em que encontrei um esqueleto de rato inteiro, faltando só o crânio. Eu o guardei em um vidro de café, com todo cuidado. Quem não gostou nada foi minha mãe, que o jogou fora sem dó nem piedade, alegando que eu poderia adoecer. Chorei por muitos dias, magoada com a “insensibilidade” dela.
Um dia eu assisti a um documentário que mostrava arqueólogos mergulhando no litoral mexicano, para ver cavernas com pinturas rupestres. Aquilo me encantou, e passei dias sonhando com os arqueólogos do futuro vindo estudar minha casa. Resolvi facilitar o trabalho deles, e comecei a coletar plantas, colar em folhas sulfite e anotar todos os dados de cada uma: nome popular, nome científico, tipo, gênero, espécie, família, etc. Aí eu colocava esta folha em um plástico e vedava com fita “durex”. 

Minha infância foi bem feliz. Na adolescência é que comecei, de fato, a me sentir diferente dos outros. Quando alguém perguntava sobre ator, cantor ou filme preferido, eu me dava conta de que não sabia quase nada sobre estes assuntos. Eu gostava dos cantores que meus pais ouviam, e assisti aos filmes que passaram em casa ou que me levaram para assistir, mas nunca tinha parado para pensar em qual me agradava mais e o porquê. Como todo adolescente, eu queria me enturmar e ser aceita, mas tive dificuldades e comecei a ficar cada vez mais braba e irritadiça. Talvez você uma forma de dizer: “Vocês não me querem? Ok, eu não preciso de vocês.” Eu me condoia com os rejeitados, e os defendia, e por isso aqueles que ninguém queria por perto acabaram se tornando minha turma. Por um lado isso era legal, mas por outro, a maioria deles não se interessava pelos meus gostos também, então eu continuava me sentindo só. Me sentia inadequada, apenas “orbitando” ao redor da sociedade. Sentia que não havia lugar e função para mim nesta terra. Com o tempo, passei a querer morrer. 

Quando eu estava com 20 anos de idade, um primo foi diagnosticado como portador de TDAH. Meu tio conversou com minha mãe e disse que via muitos sintomas de TDAH em mim também. Assim, depois de passar por 3 psiquiatras, 2 neurologistas e vários exames, comecei a tomar Ritalina.
Nos primeiros dias me senti mais ansiosa e irritadiça do que antes, e tremia mais do que um bambu verde. Mas logo meu organismo se acostumou, e os benefícios começaram a aparecer. Um dos primeiros foi a mudança de letra (?!?), que era feia e insegura e tornou-se redonda, firme e simétrica. Comecei a ficar mais tempo focada nas atividades cotidianas, e os períodos de hiperfoco foram ficando menores. Minha mãe diz que sou uma versão feminina de “Jekill and Hyde”, tal foi a minha transformação. 

De repente, comecei a prestar atenção nas pessoas ao meu redor. Tudo nelas era fascinante: gesticulação, expressões, tons de voz, histórias, reações, tudo! Era como se eu estivesse finalmente descobrindo o mundo. Eu saí de dentro de mim mesma e comecei a observar a sociedade. Então as músicas se tornaram interessantes, a moda, a arquitetura, as invenções científicas... Enfim, tudo o que a mente humana produz se tornou objeto de grande interesse para mim. Em poucos meses descobri o que as outras pessoas descobrem em anos, e logo escolhi cantores favoritos, logo decidi que filme me agrada mais, que lugares quero conhecer. Comecei a entender as pessoas, e a conseguir compartilhar dos gostos delas. Então comecei a querer fazer tudo que nunca tinha feito: sair para dançar, namorar, sair com amigos. Antes tarde do que nunca, né? 

Até hoje sinto que quase ninguém me conhece e me compreende completamente, mas isso não dói mais, porque já não me sinto uma alienígena como antes. É como se meu cérebro pudesse trabalhar em modo “social” (focado em coisas mais “normais”) quando estou com outras pessoas, ou em modo “eu mesma” (focado nas coisas que dão prazer só a mim mesma) quando estou sozinha. Com a diferença de que agora, depois de 10 anos de medicação, consigo dosar o tempo gasto com meus hobbies e o tempo necessário para cuidar das atividades diárias inerentes à vida de adulto. E estou indo bem!

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Eu, eu mesma e DDA.

Depois de mais um período sem conseguir conectar, aqui estou eu de volta. Resolvi começar de um assunto que provavelmente será muito mencionado aqui: o Distúrbio do Déficit de Atenção. Até porque sem DDA eu não sou eu.

Para quem não sabe, este é um distúrbio neurológico que tem como sintomas a impulsividade, a desorganização, a inconstância de atenção, etc. É uma aventura ter um DDA em casa, e minha família até que tem se saído bem.      Resolvi tratar deste assunto porque sei que para muitos este tipo diferente de funcionamento cerebral ainda traz muita tristeza e preocupação. Recomendo o livro "Mentes Inquietas" para quem quiser saber mais.

E digo que nem tudo está perdido, pois com tratamento adequado um DDA consegue superar suas dificuldades e se dar muito bem em todas as esferas da vida!

Por que, se por um lado o portador convive com a frustração de "ser diferente", de não render como os demais, por outro lado ele têm facilidade para coisas que a maioria dos mortais não tem. Uma das características é "a falta de freio", que faz com que estas pessoas consigam ir além do que a maioria teria coragem, o que tem aspectos bons e ruins, que pretendo discutir mais a fundo mais tarde.

O primeiro passo, creio eu, é confirmar o diagnóstico, buscar conhecer melhor esta condição neurológica e se aceitar, buscar fazer o melhor da vida, apesar dos pesares.

Go ahead! ;D